Com foco em terapias personalizadas e identificação de biomarcadores, pesquisador visa melhorar o diagnóstico e tratamento da doença.
por Rogério Bordini
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câncer de cólon e reto, também conhecido como colorretal ou de intestino, é o terceiro mais comum no Brasil, com estimativa de 45.630 novos casos anuais entre 2023 e 2025 e que afeta principalmente pessoas a partir dos 50 anos. Fatores de risco associados à doença incluem sedentarismo, obesidade, consumo regular de álcool e tabaco, dieta pobre em fibras, frutas e vegetais. Mas algo preocupante vem sendo notado por especialistas: um aumento significativo da doença entre pessoas de 20 a 49 anos, grupo até então não considerado de risco. Esse crescimento observado nos últimos 30 anos pode ser atribuído a fatores adicionais, como mudança brusca de estilo de vida, consumo exagerado de ultraprocessados, além de sobrepeso, uso indiscriminado de antibióticos e condições genéticas.
João Figueira Scarini, pós-doutorando no CRIO sob orientação de Kenneth Gollob, tem focado no desenvolvimento de terapias mais eficazes e personalizadas no tratamento de câncer de cólon. Seu objetivo é compreender a progressão da doença, com ênfase na transformação do tumor benigno (adenoma) em maligno (carcinoma). A partir disso, ele busca identificar alvos terapêuticos que possam ser aplicados a outras neoplasias malignas com perfis genômicos semelhantes, promovendo, assim, tratamentos mais eficazes. “A medicina de precisão é essencial para oferecer terapias personalizadas a cada paciente, uma vez que nem todos respondem da mesma maneira aos tratamentos. Assim, é crucial adaptar as abordagens terapêuticas às características individuais de cada pessoa”, afirmou o pesquisador em entrevista ao podcast Imuno Agentes.

Quanto às formas de diagnóstico, Scarini menciona que, assim como muitos tumores podem se desenvolver de forma silenciosa, o de cólon não é diferente. “É crucial que os pacientes estejam atentos a sintomas e busquem avaliação médica quando necessário. Exames de rastreamento, como a colonoscopia, são fundamentais para a detecção precoce do câncer, permitindo identificar alterações antes que se tornem malignas”, sugere o pesquisador. Sintomas podem envolver sangramento retal, alterações no hábito intestinal (diarreia ou constipação), dor abdominal, anemia e perda de peso inexplicada. Outros sinais podem ser fadiga persistente e sensação de inchaço abdominal.
Cânceres de cólon, quando diagnosticados, geralmente são tratados com cirurgia, desde que não estejam em estágios avançados ou com metástases. O tratamento frequentemente inclui quimioterapia – que pode ter seus esquemas alterados em caso de recidivas –, além de radioterapia, em alguns casos. Scarini também observa que a sobrevida após o diagnóstico tende a ser curta, uma vez que os cânceres de cólon e reto são frequentemente identificados em estágios avançados. Por isso, destaca a importância de realizar mais estudos para aprofundar o conhecimento sobre a patologia e desenvolver novas opções de tratamento.
Mirando em novos alvos
Mas como Scarini espera identificar novos alvos terapêuticos para aprimorar o tratamento de câncer de cólon? De algumas formas. Grosso modo, sua pesquisa se baseia em coortes, isto é, estudo observacional que acompanha grupos de indivíduos que compartilham uma mesma experiência ou característica (uma doença, por exemplo), analisando-os ao longo do tempo.
No caso de sua investigação, ele tem trabalhado com dois tipos de coortes: prospectiva e retrospectiva. Na primeira, Scarini acompanha pacientes desde o diagnóstico e tratamento de câncer de cólon, coletando dados ao longo do tempo. Isso inclui informações sobre o sangue antes e após a cirurgia e quimioterapia, o que permite observar mudanças no tratamento e a interação entre células imunes e cancerígenas. Já na coorte retrospectiva, ele analisa dados de pacientes que já passaram pelo tratamento, revisando laudos patológicos e amostras coletadas anteriormente, sem estar presente no momento do diagnóstico.
Os participantes do estudo, pacientes do Einstein e Hospital Municipal Vila Santa Catarina, ambos em São Paulo/SP, fizeram parte de um processo de recrutamento rigoroso. Scarini explica que, após selecionar pacientes que atendessem aos critérios de inclusão necessários à pesquisa – como características demográficas, clínicas e geográficas –, a equipe responsável os contatou para obter o termo de consentimento livre e esclarecido. Esse procedimento, além de ser anônimo para proteger a identidade dos participantes, também serve para verificar se estão em condições adequadas para participar do estudo, considerando fatores como tratamento prévio e estado de saúde. Além disso, o pesquisador teve suporte de uma equipe multidisciplinar formada por enfermeiros e patologistas, para garantir uma abordagem ética e eficaz na pesquisa, respeitando sempre os direitos dos pacientes.
Scarini ainda faz uso de metodologias avançadas, como a genômica, que estuda o material genético (DNA) para entender as expressões gênicas e proteicas relacionadas ao câncer. “Essas tecnologias genômicas ajudam a identificar características moleculares e imunológicas que podem afetar o desenvolvimento e a progressão da doença, além de auxiliar na seleção de pacientes para estudos clínicos”, disse o pesquisador. Até poucos anos, a análise da expressão gênica era realizada com técnicas como o PCR convencional, que amplifica uma região específica do DNA para gerar material suficiente para análises. Com os avanços tecnológicos, o PCR em tempo real tornou esse processo mais rápido e eficiente – como muito utilizado durante a pandemia de COVID-19.
Implicações em práticas clínicas e na imunoterapia
Embora a imunoterapia ainda seja emergente para tratamento primário para o câncer colorretal no Brasil, sua utilização já é indicada em alguns contextos da doença. Por exemplo, o imunoterápico pembrolizumabe foi aprovado pela ANVISA para tratamento de cânceres colorretais metastáticos com instabilidade de microssatélites elevada (MSI-H) ou deficiência de reparação por incompatibilidade (dMMR). Essas condições ocorrem quando pequenas sequências de DNA apresentam alterações irregulares, indicando falhas na correção de erros. Como resultado, as células não conseguem corrigir essas anomalias, o que aumenta o risco de desenvolvimento de doenças, incluindo o câncer.
Para que a imunoterapia seja mais amplamente utilizada e eficaz no tratamento do câncer colorretal, Scarini visa identificar biomarcadores e alvos terapêuticos que poderão ajudar a entender quais pacientes são mais propensos a ter uma resposta positiva ou negativa ao tratamento, o que é crucial à medicina personalizada. “Esses biomarcadores poderão indicar, por exemplo, se um paciente tem um alto risco de metástase ou recorrência, permitindo uma abordagem mais direcionada e eficaz no tratamento do câncer”, completa o pesquisador.
Os impactos da pesquisa de Scarini incluem a possibilidade de melhorar as taxas de resposta a tratamentos oncológicos, aumentar a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes, além de reduzir os efeitos colaterais associados às terapias convencionais. Ele enfatiza a importância de desenvolver drogas que sejam eficazes sem causar toxicidade significativa, o que seria um avanço na prática clínica.
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Que saber mais?
🎧 Ouça a entrevista completa no Imuno Agentes Podcast
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Dr. João Figueira Scarini (pós-doutorando)
- E-mail: joao.scarini.ext@einstein.br
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- ResearchGate
Dr. Kenneth Gollob (supervisor e diretor CRIO)
- E-mail: kenneth.gollob@einstein.br
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