No dia 6 de maio de 2026, o Centro de Ensino e Pesquisa do Einstein Hospital Israelita, no Morumbi, recebeu o evento Vozes da Ciência Latino-Americana, que reuniu pesquisadores e lideranças globais para discutir o presente e futuro da produção científica na região.

O CRIO esteve representado por seu coordenador, Dr. Kenneth Gollob, na mesa “Produzir Ciência na América Latina: Carreiras, Práticas e Fluxos de Conhecimento”, com participação de especialistas internacionais (veja abaixo) e moderação do jornalista Theo Ruprecht.
Para antecipar algumas das discussões centrais do encontro, reunimos abaixo reflexões do coordenador do CRIO, Kenneth John Gollob, sobre o cenário atual da ciência na América Latina e o papel estratégico da região no contexto global.
Como o senhor avalia hoje a América Latina em termos de produção científica?
Kenneth John Gollob: A América Latina apresenta uma capacidade científica sólida e em crescimento, embora ainda seja frequentemente subestimada quando analisada apenas por métricas globais tradicionais. A produção científica aumentou significativamente nos últimos anos, e em diversas áreas a qualidade é muito alta.
Ainda assim, a região enfrenta limitações estruturais importantes, como instabilidade no financiamento, limitações de infraestrutura de longo prazo e barreiras administrativas. O principal desafio não é a falta de talento ou de ideias, mas a necessidade de condições estáveis que permitam o desenvolvimento contínuo de pesquisas mais ambiciosas.
Ao mesmo tempo, pesquisadores latino-americanos desenvolveram uma forte capacidade de adaptação, criatividade e colaboração. No Brasil, instituições de excelência, programas de pós-graduação e agências como a FAPESP têm contribuído para a construção de uma ciência competitiva internacionalmente.
Quais áreas de pesquisa melhor evidenciam hoje o potencial da América Latina?
KJG: A região tem grande potencial em áreas onde desafios locais se conectam comquestões globais, como doenças infecciosas, imunologia, oncologia, saúde pública, biodiversidade, mudanças climáticas, doenças negligenciadas, genômica e ciência de dados.
Na área da saúde, esse potencial é ainda mais evidente devido à diversidade populacional e à complexidade dos sistemas de saúde, o que permite gerar conhecimento relevante que muitas vezes não está representado em estudos conduzidos em outras regiões do mundo.
Na imuno-oncologia, por exemplo, pesquisas desenvolvidas no Brasil podem contribuir para responder questões fundamentais sobre resposta à imunoterapia, interação entre tumor e sistema imune e identificação de biomarcadores — temas centrais para o avanço global da área.
A partir da sua experiência, quais são os principais pontos positivos de fazer ciência no Brasil hoje?
KJG: Um dos aspectos mais relevantes é a proximidade com necessidades clínicas e sociais reais. No Einstein (Hospital Israelita), e especialmente no contexto do CRIO, há uma integração direta entre pesquisadores, profissionais de saúde, pacientes, dados clínicos e amostras biológicas, o que favorece fortemente a pesquisa translacional.
Outro ponto é a qualidade dos profissionais e a cultura colaborativa. Mesmo diante de limitações de recursos, essa característica frequentemente impulsiona soluções inovadoras e abordagens interdisciplinares.
Além disso, o Brasil reúne condições únicas — como diversidade populacional e coortes clínicas robustas — que, quando combinadas com parcerias internacionais, permitem uma participação qualificada e relevante na ciência global.

Produzir Ciência na América Latina: Carreiras, Práticas e Fluxos de Conhecimento